Desenvolvimento do capital significa desenvolvimento da prostituição

Interior do Moulin Rouge, por Henri de Toulouse-Lautrec. Imagem: Wikimedia Commons

Por Leopoldina Fortunati

O que se passa com a relação entre homem e mulher com o advento do capitalismo, com a transformação dos servos em trabalhadores livres? Ao contrário da escravidão e da servidão, nas quais homens e mulheres estavam fundamentalmente sujeitos a uma relação de produção idêntica, o capital estabelece com o homem uma relação de produção formalmente diferente daquela que estabelece com a mulher. A divisão sexual do trabalho se desenvolve a tal ponto que leva a uma separação sexual do sujeito laborativo do processo de produção daquele do processo de reprodução, em uma situação em que esses dois processos são separados pela linha do valor. O homem, como sujeito laborativo primário da produção, é forçado, como vimos, a uma relação de trabalho assalariado; a mulher, como sujeito primário da reprodução, é forçada a uma relação de trabalho não diretamente assalariado.

Dado que a relação de produção, portanto, se dá formalmente apenas entre o operário e o capital, a diferença de poder existente entre o homem e a mulher frente ao capital alcança, do ponto de vista formal, uma amplitude jamais experimentada pelos homens e mulheres escravizados diante do proprietário e pelos servos e servas em relação ao senhor feudal. Essa diferença emerge em sua real amplitude ao considerarmos que, enquanto os escravizados se reproduziam como “máquinas de trabalho” porque eles próprios eram “máquinas de trabalho” e os servos se reproduziam como “acessórios da terra” porque eles próprios eram “acessórios da terra”, a mulher não reproduz o operário assalariado sendo ela própria uma operária assalariada, mas como uma força natural do trabalho social. A liberdade do trabalhador livre de se tornar um operário assalariado corresponde à liberdade das mulheres de se tornarem operárias da casa e do sexo não diretamente assalariadas. É precisamente na diversidade formal da relação de produção instaurada pelo capital com homens e mulheres que se deve compreender a causa da profunda desigualdade entre eles.

Essa desigualdade se traduz em uma profunda desigualdade entre os próprios homens e mulheres em sua relação individual. E não pode ser de outra forma, visto que o capital transforma a relação entre homem e mulher, antes uma relação de troca de trabalho por trabalho em sua forma imediatamente viva, em uma relação de produção formal entre eles.

[…]

Correspondendo à libertação da força de trabalho, a relação de troca entre homem e mulher também passa a se configurar como uma troca “livre”. Livre no duplo sentido de que homem e mulher se tornam “livres” tanto para realizarem trocas sem depender do consentimento de ninguém — mesmo a necessidade de consentimento dos pais aos poucos vai desaparecendo — quanto para escolher, dentro de certos limites, com quem realizá-las.

Se essas são as transformações que afetaram a relação entre homem e mulher em um nível geral no capitalismo, quais são as modificações que, em vez disso, se concretizaram na relação entre homem e prostituta? Nossa tese é que o advento do novo modo de produção, assim como transforma radicalmente a relação homem/mulher em nível geral, também modifica radicalmente a relação homem/prostituta. A linha de continuidade que parece ligar a prostituição pré-capitalista à prostituição sob o capitalismo revela toda a sua inconsistência, já numa primeira análise.

Reafirmamos: nas formas pré-capitalistas de produção, a troca entre homem e mulher assume a forma de uma troca de trabalho por trabalho em sua forma imediatamente viva. Isso é verdade, exceto para um tipo específico de troca – aquela que ocorre entre homem e prostituta. Os objetos dessa troca são, de fato, fundamentalmente dinheiro e trabalho vivo de reprodução sexual dos indivíduos.

Neste caso, o dinheiro se apresenta como dinheiro, mas dinheiro na qualidade de riqueza acumulada. Essa troca, portanto, implica um tipo de relação que inclui sobretudo aqueles homens que pertencem a si mesmos e possuem dinheiro — por exemplo, senhores feudais, padres etc. —, embora não exclua categoricamente o servo, porque é provável que uma parcela do pagamento da prostituta às vezes pudesse ocorrer em “bens naturais”.

Com o capitalismo, porém, esse tipo de relação entre homem e mulher inclui — também e sobretudo — o operário. O dinheiro trocado não é mais riqueza acumulada, mas capital variável. A prostituição, antes uma “profissão”, torna-se um trabalho não diretamente assalariado, ainda que pago monetariamente. O fato de a prostituta agora trabalhar para o operário implica que o desenvolvimento da relação de trabalho remunerado também exige o desenvolvimento dessa forma específica de troca entre homem e mulher. Desenvolvimento do capital significa desenvolvimento da prostituição.

* Este é um trecho de O arcano da reprodução: donas de casa, prostitutas, operários e capital, de Leopoldina Fortunati.


Debate de lançamento de O arcano da reprodução: donas de casa, prostitutas, operários e capital, de Leopoldina Fortunati, com Maira Kubík Mano, Camila Galetti e mediação de Marina Toledo. Terça-feira, 13 de janeiro de 2026, 15h. Ao vivo na TV Boitempo.

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Leopoldina Fortunati é membro da Academia Europeia e professora sênior de sociologia da comunicação e da cultura na Universidade de Udine, onde fundou o NuMe, laboratório que se dedica à pesquisa sobre novas mídias. Após a publicação de O arcano da reprodução: donas de casa, prostitutas, operários e capital, em 1981, passou a se dedicar ao estudo das relações entre gênero e tecnologias, sendo pioneira da chamada sociologia do telefone e do celular na Itália. Ao longo dos últimos quarenta anos, escreveu seis livros, editou ou coeditou outros dezesseis títulos, publicou mais de cem ensaios e mais de cem artigos revisados por pares, além de atuar como editora associada e revisora de periódicos acadêmicos. Seus trabalhos foram publicados em onze idiomas.


Publicado pela primeira vez em 1981, O arcano da reprodução é um clássico do feminismo italiano que ganha sua primeira tradução para o português. A partir das grandes revoltas sociais que contestaram as divisões sexuais e raciais do trabalho em todo o mundo na década de 1970, a obra de Leopoldina Fortunati expande e transforma o modo como analisamos o processo de reprodução – parte do ciclo capitalista que diz respeito à produção de indivíduos como mercadoria força de trabalho.  

O arcano da reprodução é um verdadeiro tour de force, único tanto no campo do marxismo quanto no do feminismo. Enquanto as marxistas feministas elaboraram a importância da obra de Marx para compreender a opressão e a exploração das mulheres, Fortunati revoluciona o senso comum sobre produção e reprodução ao testar as categorias marxianas por meio de sua aplicação heterodoxa.”
Silvia Federici, autora de Mulheres e caça às bruxas e O patriarcado de salário

Partindo de categorias marxistas, Fortunati vai além, explorando inclusive a visão parcial de Karl Marx em relação à análise de reprodução, uma vez que o autor, que reconhecia o papel do trabalho doméstico no processo geral de produção como momento da reprodução da força de trabalho, não atribuía a essas atividades – centrais para a manutenção da vida tanto no âmbito material, da subsistência, quanto imaterial, no que diz respeito aos afetos e à sexualidade – a capacidade de produzir valor.  

Fortunati procura demonstrar, não contra Marx, mas para além dele, como o trabalho de reprodução realizado pelas “operárias da casa” e pelas “operárias do sexo” integra o processo geral de reprodução do capital. Original, a obra nos apresenta valiosas ferramentas de análise do estado contemporâneo do desenvolvimento capitalista e das lutas das mulheres hoje. No momento em que o trabalho digital borra ainda mais as fronteiras entre as jornadas de trabalho doméstico e extradoméstico, o texto continua sendo precursor e essencial.  

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